A amamentação artificial no século XIX

Como vimos nos posts anteriores, entre 1879 e 1888, circulou no Rio de Janeiro um periódico chamado A Mãi de Familia, que era composto em sua maior parte por aconselhamentos e esclarecimentos sobre diversos assuntos médicos. Seu redator principal era o Dr. Carlos Costa, que era “especialista em doenças de crianças” e um ferrenho defensor do aleitamento materno, preceito defendido e propagado pelos higienistas, corrente de pensamento então incipiente.

O redator ressaltava que quando não fosse possível à mãe amamentar o bebê, o melhor substituto era o leite de vaca, conforme recomendavam “ilustres especialistas”, sabendo que era difícil encontrar bom leite de vaca no Rio de Janeiro, e que as mães deveriam seguir algumas recomendações:

Assim, recomendava às mães que o leite deveria ser sempre o mesmo, e de preferência novo e devia ser dado de 2 em 2 horas durante o dia e 3 a 4 vezes à noite. A criança deveria tomar o leite de vaca por meio mamadeira e a melhor era aquela em forma de sapato, com uma abertura sobre a porção mais larga e tendo uma extremidade com a forma do bico dos seios.

Numa exemplificação de como os conceitos vão mudando ao longo do tempo, o higienista censurava o mau costume que havia então de ferver o leite, que julgava desnecessário e errado. Bastava amornar. Nessa ocasião (1879), a teoria microbiana das doenças estava começando a ser difundida entre os médicos, ainda não havia consenso de que microrganismos pudessem causar infecções.

O Dr. Costa esclarecia que o leite da vaca era o que mais se aproximava quimicamente do leite da mulher, mas como continha mais manteiga e caseína do que o leite humano, ele deveria ser diluído na proporção de 2 partes de leite para uma de água. E ressalvava, irônico: ‘No leite que se vende por ahi, não há quasi necessidade da mistura, que os Srs. vaqueiros estão tão habituados a fazer”

A hipótese de recorrer às amas de leite era aceita pelo higienista em situações especiais, mas aí era incisivo: “quando aparecer, diarreia, cólicas, vômitos frequentes aí o “único meio, o único, attendei bem, de salvardes vossos filhos é dar a eles uma ama. Toda insistência em contrário se á a morte das crianças, ou pelo menos a tuberculose misentérica e o rachitismo. “



Nessa época começava a chegar no Rio de Janeiro o leite industrializado. No mesmo jornal, na edição de junho de 1879, pode ser encontrada uma propaganda de um certo Filipone que vendia latas farinha láctea e leite condensado de Nestlé, que prometia tornar desnecessárias as amas de leite. O leite condensado, que já era vendido em latas, havia sido desenvolvido em 1854 nos Estados Unidos, mas a produção industrial só se deu em 1866 pela Anglo Swiss Condensed Milk, que foi comprada em 1873 pela suíça Nestlé. Na época não havia adição de açúcar e o leite condensado era para ser bebido após reconstituição com água.

Neto Geraldes

Um novo historiador que gosta da medicina e um velho médico que gosta da história.

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