Phineas Gage: o acidente que mudou a neurologia e psiquiatria

Phineas Gage: o acidente que mudou a neurologia e a psiquiatria

O acidente com Phineas Gage, em meados do século XIX, tornou-se célebre na história da medicina. Foi um evento gravíssimo, inusual em vários aspectos, que contribuiu decisivamente para o avanço do conhecimento nas áreas da neurologia e da psiquiatria.

Phineas Gage e a barra de ferro

O desastre

No ano de 1848, Phineas Gage, então com 25 anos, trabalhava na construção da estrada de ferro Rutland & Burlington Railroad em Cavendish, nos Estados Unidos. Ele era capataz de uma equipe responsável por abrir caminho entre as rochas para o leito da ferrovia. No dia 13 de setembro, Gage estava preparando a explosão de um rochedo e colocava pólvora em uma profunda cavidade aberta na pedra. Era um trabalho perigoso e com precários cuidados de segurança — a dinamite, que tornaria esse tipo de atividade um pouco mais segura e controlada, só seria inventada em 1866.

Enquanto compactava a pólvora no buraco utilizando uma barra de ferro, provavelmente gerou-se uma faísca que provocou uma explosão precoce, disparando a barra contra o seu rosto. O projétil entrou pela bochecha esquerda, atravessou o cérebro e saiu pelo topo do crânio. Para se ter uma ideia da intensidade do impacto, a barra de ferro tinha 1,1 metro de comprimento, 3,2 centímetros de espessura, pesava 6,01 quilos e foi encontrada a 25 metros de distância do local.

Representação da lesão craniana

O inusitado da situação é que Gage não só sobreviveu, como permaneceu consciente. Foi então  levado em uma carroça para um hotel em Cavendish, onde esperou por socorro. O Dr. Edward Higginson Williams foi o primeiro médico a atendê-lo e teria sido recebido pelo paciente com a frase: “Doutor, aqui tem trabalho para você”. Cerca de uma hora mais tarde, chegou o Dr. John M. Harlow, que assumiu o caso e se tornou personagem central desse relato.

O Dr. Harlow

John Harlow- 1819-1907
John Martyn Harlow- 1819-1907

John Martyn Harlow nasceu em 1819 e formou-se em medicina em 1844 na Filadélfia, com uma formação fortemente voltada para a anatomia e a cirurgia. Graças a ele, detalhes cruciais dessa história foram preservados. Suas anotações, relatos minuciosos e publicações não deixaram que o caso caísse no esquecimento ou se tornasse apenas uma lenda folclórica. Além disso, suas meticulosas descrições forneceram a base para os desdobramentos científicos do ocorrido. Em dezembro de 1848, ele publicou o artigo Passage of an Iron Rod Through the Head no já importante Boston Medical and Surgical Journal (que, em 1928, seria rebatizado como The New England Journal of Medicine).

No artigo, o Dr. Harlow descreve como apurou o acidente:

“(…) a pólvora explodiu, arremessando a barra contra o lado esquerdo do rosto, imediatamente à frente do ângulo do osso maxilar inferior. Seguindo uma direção ascendente e posterior em direção à linha mediana, penetrou a pele, os músculos masseter e temporal, passou sob o arco zigomático e (provavelmente) fraturou a porção temporal do osso esfenoide e o assoalho da órbita do olho esquerdo, entrou no crânio, atravessando o lobo anterior esquerdo do cérebro, e saiu na linha mediana, na junção das suturas coronal e sagital, lacerando o seio longitudinal, fraturando extensivamente os ossos parietal e frontal, fragmentando porções consideráveis do cérebro e levando à protusão do globo ocular esquerdo de sua órbita em quase metade de seu diâmetro”.

Recriação artística do acidente pelo designer brasileiro Cícero Moraes

Harlow relatou ainda que os fragmentos ósseos estavam expostos, o cérebro estava protuberante e o quadro era terrível, mas o paciente suportou tudo heroicamente. Gage estava consciente, embora apresentasse hemorragia abundante; seu corpo e a cama em que estava deitado eram “literalmente uma poça de sangue”. O médico removeu os coágulos e fez os curativos. No procedimento, retirou uma porção do cérebro que estava suspensa por um pedículo, recolocou os fragmentos ósseos do crânio o mais próximo possível do lugar original e aproximou o couro cabeludo, fixando-o com tiras adesivas. O curativo foi finalizado com uma touca noturna e bandagens. Deve-se levar em conta que, na época, não existiam anestésicos nem antibióticos.

A evolução clínica

Às 22h daquela mesma noite, poucas horas após o trauma, o médico relatou que os curativos estavam encharcados de sangue, mas a hemorragia parecia diminuir e o paciente continuava consciente. No dia seguinte, Gage apresentava um edema facial importante, mas permanecia lúcido.

No terceiro dia, o paciente ficou delirante. Como a hemorragia tinha cedido, o Dr. Harlow retirou a touca noturna e prescreveu purgativos, seguindo os conceitos de tratamento de inflamação vigentes na época. A visão do olho esquerdo já estava muito comprometida. No dia seguinte, surgiu uma secreção seropurulenta fétida nos ferimentos da cabeça, “com partículas de tecido cerebral misturadas”, e apareceu o que o médico chamou de “fungo” no canto do olho esquerdo. Outros laxantes foram prescritos.

O quadro infeccioso persistiu e formou-se um abscesso no músculo frontal, que precisou ser drenado, liberando cerca de 250 ml de pus. O “fungo” periocular proliferou em direção ao cérebro e foi combatido com nitrato de prata. Gage permaneceu em estado semicomatoso até o dia 03 de outubro, quando começou a melhorar e a recobrar a lucidez. Em meados de novembro, foi submetido a uma sangria (de cerca de meio litro de sangue) para tratar um resfriado que lhe provocava intensa dor de cabeça e no rosto. Apresentando melhora gradativa, no dia 18 de novembro ele já se sentia bem, e o Dr. Harlow considerou o caso controlado.

A barra de ferro e o crânio de Gage

Phineas Gage recuperou-se fisicamente e chegou a voltar ao trabalho. Entretanto, sua personalidade mudou radicalmente, a ponto de o Dr. Harlow afirmar que “Gage não era mais Gage”. Antes uma pessoa de comportamento equilibrado, ele se tornou irresponsável, grosseiro, agressivo, impaciente e obstinado. Devido a isso, foi demitido do emprego e, em 1852, mudou-se para o Chile, onde trabalhou como condutor de diligências. Retornou aos Estados Unidos em 1860 e faleceu cerca de 12 anos após o acidente, em 21 de maio de 1860, em consequência de crises convulsivas severas. Devemos essas informações posteriores ao Dr. Harlow, que localizou a mãe de Gage anos depois e obteve permissão para exumar o crânio do ex-ferroviário. Harlow publicou em 1868 um outro trabalho, denominado Recovery from the passage of an iron bar through the head, em que recapitulou o acidente e a evolução do quadro.

Os avanços no conhecimento

Embora alguns pesquisadores modernos contestem a extensão dessa mudança radical de personalidade e outros apontem que a lesão cerebral se limitou ao lobo frontal esquerdo, o fato é que esse terrível acidente revolucionou a medicina.

Ele forneceu uma das primeiras evidências concretas de que diferentes funções biológicas e cognitivas estão ligadas a áreas específicas do cérebro. A alteração comportamental de Gage demonstrou que danos em áreas cerebrais específicas podem transformar a personalidade e o comportamento social de um indivíduo sem necessariamente afetar sua inteligência geral. O acidente abriu caminho para as pesquisas modernas sobre as funções do lobo frontal e alimentou de forma definitiva o debate filosófico e científico entre mente e corpo.

Referências:

1. Harlow, J.M. Passage of an Iron Rod through the Head. Boston Medical and Surgical Journal. 13 de decener de 1848.

2. Ratiu, P, Talos, I-F e e outros. The Tale of Phineas Gage, Digitally Remastered. Journal of Neurotrauma. 2004, Vol. 21, 5.

3. Kotowicz, Z. The strange case of Phineas Gage. History of the Human Sciences. 20, 2007, Vol. 1.

4. Macmillan, M. An odd kind of fame. s.l. : Massachusetts Institute of Technology, 2002.

5. MacMillan, M. Restoring Phineas Gage: A 150th Retrospective. Journal of the History of the Neurosciences . 1, 2000, Vol. 9.

6. Harlow, J.M. Recovery from the passage of an iron bar through the head. Harvard Countway Library Center of History of Medicine. june , 1868.

7. Teles Filho, R.V. O grande legado de Phineas Gage. Dementia & Neuropsychologia. 14, 2020, Vol. 4.

8. Garcia- Molina, A. Phineas Gage and the enigma of the prefrontal cortex. Neurologia. 27, 2012, agosto, Vol. 6.

Neto Geraldes

Um novo historiador que gosta da medicina e um velho médico que gosta da história.

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