No final dos anos 1920, começava a história de um acontecimento médico absolutamente revolucionário, que iria mudar a medicina para sempre, subvertendo conceitos profundamente estabelecidos, alterando e renovando o estilo de pensamento de médicos e de pacientes: a descoberta da penicilina.
No dia 03 de setembro de 1928, uma segunda-feira, o bacteriologista Alexander Fleming estava retornando de férias de seu trabalho no Hospital St. Mary, ligado à Universidade de Londres, no Innoculation Department, Examinando as várias das placas de Petri com culturas de estafilococos que ainda estavam sobre a bancada onde as deixara antes das férias, Fleming, em determinado momento, teve sua atenção voltada para o fato de que uma delas estava contaminada por um fungo e que nas proximidades desse fungo não havia crescimento dos estafilococos. Muito provavelmente influenciado por suas pesquisas anteriores, especialmente as que resultaram na descoberta da lisozima ele logo percebeu que aquele fungo provavelmente produzia alguma substância que inibia o crescimento da bactéria. Em 1921, Fleming havia descoberto a lisozima ao colocar gotas de muco nasal proveniente de seu próprio resfriado em uma placa de Petri com colônias de estafilococos e observar que se formava uma área livre de bactérias ao redor do ponto onde estava o muco. Em experimentações sucessivas, observou a presença dessa atividade antibacteriana também na lágrima, no leite materno, na clara de ovo e em outros tecidos e secreções corporais.
Uma das primeiras providências de Fleming foi fotografar a placa original e transplantar a colônia fúngica para um meio de cultura de modo a assegurar material para futuras observações. Observou que nos dias seguintes o fungo se desenvolvia como uma película e abaixo dela se acumulava uma substância líquida. Fleming resolveu estender a observação sobre essa substância e numa placa de Petri fez um sulco onde colocou esse caldo. Semeou então culturas de vários tipos de bactérias perpendicularmente ao sulco, observando que bactérias como estafilococos, estreptococos e pneumococos não se desenvolviam nas proximidades do local onde inoculara o caldo da cultura. Ficava assim bem fundamentada a hipótese de que aquele fungo produzia uma substância que tinha a capacidade de inibir o crescimento de certas bactérias.
No seu primeiro artigo sobre a penicilina, On the antibacterial action of cultures of a penicillium, with special reference to their use in the isollation of B. influenzae, publicado na edição de junho de 1929 do British Journal of Experimental Pathology, Fleming apresentou suas principais observações e conclusões a que chegou nos estudos desenvolvidos a partir da observação do fenômeno da lise bacteriana provocada pelo mofo contaminante, que acreditava ser do gênero Penicillium. Nesse trabalho, ele destacou várias das experiências que havia realizado desde 03 de setembro e sumarizou em dez tópicos as principais conclusões a que chegou:
“1- Um certo tipo de penicillium produz em cultura uma poderosa substância antibacteriana. O poder antibacteriano da cultura alcança seu máximo em cerca de 7 dias a 20º C e depois de dez dias diminui até seu quase desaparecimento em 4 semanas.
2- O melhor meio encontrado para a produção da substância antibacteriana foram os caldos nutrientes comuns.
3- O agente ativo é facilmente filtrável e o nome ‘penicilina’ foi dado aos filtrados das culturas do fungo.
4- A penicilina perde a maior parte de seu poder depois de 10 a 14 dias à temperatura ambiente, mas pode ser preservada por mais tempo, por neutralização.
5- O agente ativo não é destruído por fervura por poucos minutos, mas a fervura em soluções alcalinas por uma hora reduz acentuadamente o seu poder. É praticamente destruído em autoclave por 20 minutos a 115º C. É solúvel em álcool, mas insolúvel em éter ou clorofórmio.
6- A ação é bem acentuada em cocos piogênicos e no grupo de bacilos diftéricos. Numerosas bactérias são bastante insensíveis, ex. o grupo coli-tifoide, o grupo influenza-bacilos e os enterococos.
7- Penicilina não é tóxica para animais em altas doses e não é irritante. Essas doses não interferem com a função dos leucócitos num grau maior do que os caldos comuns.
8- Sugere-se que ela pode ser um eficiente antisséptico para aplicação ou injeções em áreas infectadas com micróbios sensíveis à penicilina.
9- O uso da penicilina em placas de cultura obviamente causam muitas inibições bacterianas, o que não é muito evidente em culturas comuns.
10- Foi demonstrado seu valor como auxiliar no isolamento de B. influenzae”.
A identificação da espécie daquele fungo do gênero Penicillium foi difícil. Com o auxílio do micologista Charles La Touche, o fungo foi especificado como sendo o Penicillium rubrum, difícil de se encontrar na natureza, mas frequente em ambiente de laboratório. Somente em 1932, outro micologista, Charles Thom o classificou como Penicillium notatum.
Fleming teve dificuldade em encontrar químicos que se dispusessem a enfrentar a tarefa de purificar e isolar a substância ativa do “caldo de mofo”. Só em 1932, Harold Raistrick, professor de bioquímica e especialista em metabólitos fúngicos, realizou vários estudos e experiências nesse sentido, mas também não obteve sucesso.
Alguns experimentos de natureza clínica, com resultados promissores foram realizados. O trabalho de Fleming, entretanto, não despertou grande entusiasmo entre seus colegas londrinos, talvez até pela sua timidez, pela monotonia de sua oratória ou pelo pouco entusiasmo quando defendia seus pontos de vista. Em 13 de fevereiro de 1929, fez uma apresentação de sua descoberta no Medical Research Club, ao término da qual não houve sequer uma pergunta por parte da audiência, denotando a falta de interesse no assunto, o que aliás já tinha sido observado anos antes, quando apresentou a descoberta da lisozima.
O fato é que naquele momento, nem Fleming nem outros cientistas prosseguiram com os estudos sobre a penicilina, que permaneceu adormecida até os últimos anos da década de 1930, quando despertou com estardalhaço, graças aos trabalhos de Florey, Chain e Heatley da Universidade de Oxford e provocou o que pode ter sido a maior revolução da medicina no século XX.
Mas isso será assunto para os próximos posts.
Referências:
1. Pereira, Ana Leonor e Pitta, João Rui. ALEXANDER FLEMING (1881-1955) da descoberta da penicilina(1928) ao Prêmio Nobel (1945). Revista da Faculdade de Letras. Historia. 2005, Vol. 6, pp. 129-151.
2. Friedman, Meyer e Friedland, Gerald W. As dez maiores descobertas da medicina. [trad.] José Rubens Siqueira. São Paulo : Companhia das Letras, 2000. pp. 243-276.
3. Allison, V.D. Personal recollections of sir Almorth Wright and sir Alexander Fleming. The Ulster Medical Journal. 1974, Vol. 43, 2, pp. 89-98.
4. Brown, Kevin. Penicillin Man. Alexander Fleming and the antibiotic revolution. Sparkford : Sutton Publishing, 2005. pp. 1-12.
5. Fleming, Alexander. The discovery of penicillin. British Medical Bulletin. 1944, Vol. 2, pp. 4-5.
6. Ligon, B. Lee. Penicillin:its discovery and early’s development. Seminars in Pediatric Infectious Diseases. 2004, Vol. 15, pp. 52-57.
7. Prieto, J Prieto e Gómes-Lus, M L. De la lisozima a la penicilina: un camino tan complejo como interesante. Revista Espanola de Quimioterapia. 2006, Vol. 19, 3, pp. 291-294.
8. Fleming, Alexander. On the antibacterial action of cultures of a penicillium, with special reference to their use in the isollation of B. influenzae. The British Journal of Experimental Pathology. 1929, Vol. 10, pp. 226-236. Obtido do Bulletin of the World Health Organization, 2001, 79(8):780-790.
9. Cafini, F e Alou, L. 30 octobre de 1928, una fecha clave en el diario de Fleming. Rev Esp Quimioterap. 2006, Vol. 19, 4, pp. 395-396.
10. Hare, Ronald. New light on the history of penicillin. Medical History. 1982, Vol. 26, pp. 1-24.
11. Diggins, Frank. The true history of the discovery of the penicillin by Alexander Fleming. Biomedical Scientist. 2003, pp. 243-249.


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Excelente oportunidade para recordar e ampliar a cultura médica, história e biografias. Parabéns pelo seu trabalho que nos enriquece, assim como as homenagens aos homens e mulheres que devotados (as) a ciência e arte da Medicina, alargam nossos horizontes. Desejando-lhe ainda, Ano Novo repleto de bençãos, SAÚDE E PAZ para você e toda Família.
Muito bom como sempre! Essa descoberta é um clássico! Revolucionou a nossa profissão! Obrigado por nos trazer à luz novamente para que nunca nos esqueçamos do poder da observação cuidadosa e do interesse pelo próximo! Grande abraço!
Olá Neto. Parabéns mais uma vez pelo excelente post que muito contribui para o nosso conhecimento e para valorizar a história dos grandes vultos da medicina. Obrigado.
Os conhecimentos ancestrais de povos depois subjugados pelo colonialismo já comprovavam o efeito dos fungos, medicinais e tóxicos. Autóctones brasileiros colocavam bolor de citros à entrada das panelas de sauvas e quem-quém, fazendo com que roçassem nas carregadeiras adentrando (a primeira isca-formicida baseada nesse princípio, a AC Mirex, da multinacional norte-americana Pfizer, só seria lançada no mercado nos anos 70). Também ouvi relatos de que havia uma índia curandeira em Ribeirão Preto que recomendava, antes de 1920, que “se passasse bolor de frutas nas perebas (piodermites)”, frisando: bolor de laranja, tangerina e, (incrível,!) bolor de melão, de melancia, melhor ainda (seria de onde depois isolou-se a amoxicilina, não?).
Parabenizo o colega pela valorização da ciência, nunca época em que a violência de mentes fanatizadas a agridem tão brutalmente. Época similar só encontro paralelo com o chamado Reinado do Terror vivido durante a Revolução Francesa nos anos macabros de 1793 e 1794. Sucesso na sua atividade em prol da ciência moderna.
Parabenizo
Material histórico mostra q a ciência depende de observacao e perseverança .
Alexander Fleming ocupa posto de destaque no Panteão da Medicina com todo mérito.