A Sindrome de Munchausen é um transtorno psiquiátrico em que o paciente deliberadamente simula, inventa, exagera ou até provoca sintomas de doenças, chegando às vezes a se submeter a procedimentos invasivos. Esses pacientes geralmente têm bom conhecimento da terminologia médica e tendem a dramatizar os seus relatos. Existe uma outra forma, mais preocupante em que o indivíduo inventa, simula e até causa sintomas de doença em outra pessoa, quase sempre uma criança. É a chamada Síndrome de Munchausen por procuração, que pode ser situação extrema de abuso infantil, com graves consequências.

A síndrome foi descrita em 1951 pelo médico britânico Richard Asher, em artigo publicado no The Lancet. Nesse artigo, Asher destaca algumas características dos pacientes que observou: apresentam histórias falsas ou exageradas, frequentemente se deslocam entre serviços médicos diferentes e podem causar danos a si próprios para simular sintomas. Os pacientes normalmente não buscam ganhos financeiros ou legais. Sua motivação seria de natureza emocional, o desejo de ser cuidado, receber atenção e compaixão.
As manifestações clínicas da Síndrome de Munchausen seriam de três tipos principalmente:
- Tipo Abdominal: Caracterizado por sintomas como dor abdominal, vômitos, diarreia e sangramentos. Esses pacientes frequentemente simulam condições que podem até levar a investigações e a intervenções cirúrgicas desnecessárias.
- Tipo Hemorrágico: Envolve sangramentos simulados ou induzidos, como hemorragias nasais, sangramento urinário ou gastrointestinal. Os pacientes podem usar métodos artificiais para causar ou simular esses sangramentos.
- Tipo Neurológico: Inclui sintomas como convulsões, desmaios e fraqueza. Esses pacientes podem simular condições neurológicas graves para atrair atenção médica.
O epônimo foi determinado pelo próprio Asher, que no seu artigo nomeou a condição como Síndrome de Munchausen, referindo-se ao Barão de Munchausen, um militar alemão chamado Karl Friedrich Hieronymus von Münchhausen (1720–1797), que serviu no exército russo e ficou célebre pelas narrativas fantasiosas e exageradas de suas aventuras.

As histórias fantásticas do Barão foram recolhidas e romanceadas por Rudolph Erich Raspe e publicadas em 1785 no livro As surpreendentes Aventuras do Barão de Münchhausen, que fez muito sucesso. Uma das histórias do livro conta que Munchausen foi certa vez atacado por um cão raivoso, mas conseguiu escapar jogando seu casaco sobre o cão. No dia seguinte todas as roupas do seu armário estavam despedaçadas. É que o casaco tinha contraído a raiva e atacado as outras vestes que estavam no guarda-roupas. O Barão conta também que conheceu um homem com uma tampa de prata no crânio. Para evitar a embriaguez, quando bebia ele abria essa tampa e deixava escapar os vapores alcoólicos.
Em outro episódio formidável, ele relata que na guerra contra os turcos, atravessou com seu cavalo Demônio em alta velocidade um portão que estava se fechando. O cavalo continuou correndo em disparada, até que o barão percebeu que o portão havia cortado o cavalo ao meio que permanecera correndo, somente com sua metade anterior. A parte traseira do animal continuou dando coices nos inimigos que tentavam pegá-la. As duas partes foram posteriormente unidas e costuradas com fios de louro, restabelecendo a integridade do estupendo Demônio. O inconveniente é que os fios de louro germinaram, cresceram e formaram um caramanchão na anca do cavalo, que ainda proporcionava sombra nas viagens.

Em tempo: Raspe, o autor do livro, teve uma vida agitada. Era intelectualmente brilhante, mas moralmente complicado. Foi escritor, bibliotecário, mineralogista, cientista e vigarista. Esteve envolvido com várias falcatruas que o obrigaram a fugas ousadas.
Referências:
1. Asher, R. Munchausen’s Syndrome. The Lancet. Volume 257, Issue 6650 p339-341, february de 1951.
2. Raspe, R.E. As aventuras maravilhosas do celebérrimo Barão de Munchausen. [trad.] Carlos Jansen. 1885.
3. Millard, C. Concepts, Diagnosis and the History of Medicine: Historicising Ian Hacking and Munchausen Syndrome. Social History of Medicine. 3, 2016, Vol. 30.
4. Sousa, D, et al. Síndrome de Munchausen e síndrome de Munchausen por procuração: uma revisão narrativa. [Online] 2017. [Citado em: 15 de agosto de 2025.] https://www.scielo.br/j/eins/a/wPQGR7K6kRfx9vQwGkrw56B/?lang=pt.


Excelente artigo meu amigo! Acho que todos nós já nos deparamos com essa síndrome em nossas carreiras médica. É muito bom conhece – la mais detalhadamente! Obrigada por compartilhar! Parabéns
Muito bom, Neto.
Durante minhas atividades no HRAN pude acompanhar uma criança com a Síndrome de Munchausen por procuração do tipo gastrointestinal, mas posso lhe assegurar, caro colega, não foi fácil chegar ao diagnóstico .
Continue postando as suas deliciosas histórias e um forte abraço.
Alci de Castro
Muito bom Neto! Fantásticas as histórias do Barão! Hehehe… bom saber sobre a descrição da síndrome! Não é tão raro nos depararmos com casos semelhantes no consultório! Grande abraço! Parabéns mais uma vez!
Excelente Neto! Já tive vários casos dessa síndrome e o mais interessante foi de uma jovem que introduzia fragmentos de vidro nos olhos e voltou várias vezes ao consultório para remoção até que a família atendesse à orientação de procurar um psiquiatra. Abraço, meu médico e historiador!